sábado, 3 de maio de 2008

Sinopse/Guião do Livro " O Crime dos Velhos da Camarra"


João Batista nasceu e viveu no Barreiro na segunda metade do século XIX, quando os acontecimentos da história indicavam um novo aceleramento da marcha da humanidade para o conhecimento, o progresso e o bem-estar. A profunda crença dos homens oitocentistas, que o paraíso terrestre estava, de facto, ao alcance do seu tempo, contrariou a ignorância, as superstições, as trevas e o atraso tecnológico e civilizacional em que Portugal se encontrava. Os sistemas que, supostamente, suportavam todos os males do século XIX – a Igreja e a Monarquia, surgiram subitamente como os rostos visíveis de alvos a abater.

Esse homem, Livre-Pensador, construindo um sistema de valores baseados na Liberdade, Igualdade e Fraternidade, deu ao longo da sua vida o exemplo das suas ideias. Pretendendo implementar no País, cerca de 30 anos antes do 5 de Outubro de 1910, uma nação republicana, conseguiu implementar no seu tempo, graças à sua teimosia, muitas acções em prol das suas crenças, provocando uma feroz reacção dos dirigentes locais, conservadores monárquicos.

Mas o tempo, à medida que caminhou para a transição do século XIX para o século XX, subitamente estreitou-se e os acontecimentos deram a ideia de um cerco ou até mesmo de um autêntico “complô divino” contra o Batista. Foi acusado de crimes que não cometeu e encarcerado. A última acusação ligou-o ao conhecido Crime dos Velhos, que ocorreu no Barreiro, em 22 de Setembro de 1900, cuja selvajaria do assassino, esquartejando as vítimas no seu sono, projectou-se na antiga Vila onde ele foi perpetrado e no País inteiro, durante vários meses, ou até mesmo anos e gerações.

João Batista, sendo um homem muito enérgico e colérico, passou os meses de prisão a lutar desesperadamente pela sua inocência, acabando por definhar e perder a sua saúde física. Ao fim sucessivos adiamentos do início do julgamento e protelamentos dos resultados das provas periciais aos seus objectos apreendidos, consegue provar a sua inocência, mas uma súbita morte impede-o, perante a Justiça, de alcançar o estatuto de inocente, devido a impedimentos das leis vigentes. O crime nunca foi solucionado e prescreveu. Batista nunca foi reabilitado juridicamente. Mas o seu exemplo antecipou a República e talvez tenha feito alterar ou ajudado a aplicar algumas leis portuguesas.

O sacrifício do revolucionário republicano do Barreiro, humilde carpinteiro, Mestre-de-Obras, Livre-Pensador, Carbonário, filiado em duas Lojas maçónicas, mostrou-nos que no final de um caminho, que termina abruptamente num caos e num absurdo, há uma possibilidade de reconstrução de novos caminhos, de novas ordens, feita de silêncios e de afectos, porque a História é uma história com muitas estórias.

E a reconstrução dos novos caminhos é também a história de João Batista Firmino, contada pelo seu bisneto: João Manuel Firmino.

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