Filipa Domingos 21-05-2008
“O Crime dos Velhos da Camarra” é o título do livro que foi lançado pelo escritor João Firmino, no Largo de Santa Cruz, e que contou com a presença de mais de 50 pessoas que acompanharam de perto a recriação histórica, a cargo dos actores do Grupo de Teatro Projéctor, que percorreram alguns dos pontos do Barreiro velho.
“Evocar a história, reabilitar o homem e o Barreiro” é o principal objectivo deste autor que fez o levantamento de toda uma história verídica de um crime que marca a lenda do Barreiro no século XIX. Esta obra relata “os acontecimentos ocorridos no Barreiro, entre 1900 e 1902, altura em que foi barbaramente assassinado um casal de idosos e foram presos e acusados um número indeterminado de indivíduos, entre os quais vários familiares das vítimas”.
Esta poderá ser uma forma de se começar a conhecer um pouco da história retratada em ‘O Crime dos Velhos da Camarra’, livro que tem como personagem principal João Batista Firmino, sobrinho do casal “agiota e avarento” violentamente morto na madrugada de 22 de Setembro de 1900. Acusado da morte dos seus tios paternos, João Batista – como o trata o autor do livro – nunca conseguiu provar a sua inocência, face a um crime considerado dos “mais violentos da história do país”.
Por esta razão, João Firmino, bisneto do acusado, decidiu publicar em livro as histórias contadas em infância pelos seus familiares e que defendem o seu bisavô de um “crime do qual nunca se soube quem era o autor”.
“Repor a verdade dos factos e deixar o Barreiro descansar em paz” foram as declarações proferidas pelo autor, aquando do porquê do lançamento deste livro e durante toda a recriação histórica que culminou no coreto do Jardim dos Franceses, local onde foi enterrado João Batista Firmino, que faleceu na cadeia vitima de vários AVC´s.
Joaquim Matias, vice-presidente da CMB, Miguel de Sousa, director do JB, Júlio Freire, provedor da Santa Casa e uma historiadora foram algumas das individualidades presentes na sessão que fizeram parte da mesa de honra e que não pouparam nos elogios para com o autor. Todos eles recordaram os momentos de infância, onde os pais e avós falavam do crime, sem perceberem muito bem o que se tinha passado.
“Como uma obra que se lê rapidamente, uma história que prende e entusiasma do princípio ao fim”, foi a forma como a historiadora classificou “o livro que é bibliográfico, um romance e um ensaio ao mesmo tempo”. Acima de tudo, João Firmino “fez descansar a alma de um homem que lutou e morreu a defender os seus ideais e que o Barreiro nunca deve esquecer”.
"O Crime dos Velhos da Camarra"
Este horroroso assassinato, ocorrido em 22 de Setembro de 1900, na Travessa Nova do Rosário, em pleno coração da zona camarra do Barreiro, permaneceu sempre na memória da nossa gente, tanto mais que os seus autores nunca foram identificados. Como tal, a imaginação popular foi deixada entregue a si mesma, e usou largamente da liberdade para colmatar essa falha da polícia.
João Manuel Firmino, o autor deste livro notável, deu-se ao trabalho de refazer todo um percurso de investigação, mais de um século depois. E teve boas razões para isso, pois pretendia reabilitar a memória de seu bisavô João Baptista Firmino, sobrinho do casal assassinado, e que acabou por ser incriminado pelo bárbaro extermínio, sendo julgado e condenado, com base em provas muito precárias, sobretudo cartas anónimas.
João Manuel Firmino, o autor deste livro notável, deu-se ao trabalho de refazer todo um percurso de investigação, mais de um século depois. E teve boas razões para isso, pois pretendia reabilitar a memória de seu bisavô João Baptista Firmino, sobrinho do casal assassinado, e que acabou por ser incriminado pelo bárbaro extermínio, sendo julgado e condenado, com base em provas muito precárias, sobretudo cartas anónimas.
O autor faz uma excelente reconstituição do ambiente político-social dos últimos anos do século XIX, no Barreiro, evocando as eternas lutas entre regeneradores e progressistas, que localmente se intitulavam Franceses e Penicheiros, a que se vinha então juntar a crescente importância dos republicanos.
Estes tinham ganho bastante influência local, e registavam vitórias importantes, como a da abertura de um Registo Civil, dos primeiros em Portugal, ou a conquista da Mesa da Santa Casa da Misericórdia. Acabavam mesmo de dar um excelente exemplo, ao restaurar o velho edifício do antigo Hospital e sede administrativa, bem como da anexa Capela, que se achavam em completa ruína há muitos anos.
João Baptista Firmino era o líder republicano local de maior prestígio, proprietário de um estaleiro naval na praia, e concorria também a empreitadas. Homem desassombrado, algo colérico, era um alvo a abater, na interpretação do autor, que segue os complexos meandros do processo, em que o acusado protestou sempre a sua total inocência, apesar de cumprir pena há mais de um ano.
As perícias acabaram por demonstrar que o acusado tinha razão, e que umas moedas manchadas de vermelho, que lhe tinham sido apreendidas, estavam apenas cobertas de tinta de zarcão, e não de sangue. Entretanto, tinha João Baptista sido acometido de vários episódios da provável trombose cerebral, que acabaram por lhe roubar a vida, antes de ser ilibado.
A esse trabalho se dedicou o seu bisneto, reunindo provas da sua inocência, e apresentando indícios de uma cabala política que teria sido montada para conseguir o seu assassinato político, na tese do autor, aliás seguida pelos republicanos da época. O livro tem uma boa construção, apresenta evidências bem conseguidas, e constitui um excelente contributo para a reabilitação da memória do acusado.
A apresentação da obra foi antecedida por uma evocação histórica, feita por actores do Grupo Projéctor, com a participação de Fernando Mota, historiador do Arquivo Municipal do Barreiro, e do próprio autor, tendo sido revisitados todos os locais significativos para o entendimento desta tragédia.
A sessão de lançamento da obra contou com boas intervenções do Vereador Joaquim Matias, e do Provedor da Santa Casa da Misericórdia, Júlio Freire, que salientou o muito que esta instituição ficou a dever a esses homens do século XIX, que salvaram da ruína o edifício em que o livro foi apresentado.
O Jornal do Barreiro colaborou, desde o início, na divulgação deste acontecimento, e apresenta sinceros cumprimentos a João Manuel Firmino, pela qualidade da obra que nos deixa, e que alguns seus livros anteriores, na área da poesia e da prosa poética, deixavam já antever.
Miguel de Sousa



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